Nos últimos anos, a internet deixou de ser apenas um espaço de descoberta e virou um grande espelho da pressa. Vídeos de segundos, manchetes explosivas e memes que nascem e morrem em um piscar de olhos ocupam nossas telas. A cultura do “brain rot”, ou “mente derretida”, tem dominado o vocabulário da geração mais conectada da história. O termo, eleito a palavra do ano de 2024 pelo Oxford Dictionary, descreve a sensação de deterioração mental provocada pelo consumo excessivo de conteúdos curtos, triviais e repetitivos.
Mas um novo estudo sugere que o problema não se limita a quem passa o dia deslizando o dedo no celular. Pesquisadores das universidades Texas A&M, Texas em Austin e Purdue descobriram que até os sistemas de inteligência artificial começam a apresentar sintomas semelhantes quando expostos por muito tempo a esse tipo de material.
A pesquisa ainda não foi revisada por pares, mas seus resultados provocam um alerta sobre o modo como estamos treinando as máquinas que hoje escrevem textos, geram imagens e participam de conversas com seres humanos. Segundo o estudo, modelos de linguagem que receberam grandes volumes de conteúdo de baixa qualidade, como posts virais, memes e textos sensacionalistas, começaram a perder a capacidade de raciocinar de forma estruturada.
Os pesquisadores chamaram esse fenômeno de “thought skipping”, algo como “salto de pensamento”. As inteligências artificiais, diante de dados rasos e repetitivos, passaram a pular etapas do raciocínio e a responder de forma superficial. Em vez de construir uma linha lógica, elas cortavam o caminho, oferecendo respostas rápidas, mas sem profundidade. O resultado é uma espécie de atrofia cognitiva digital.
O mais preocupante é que, segundo os autores, o dano parece ser duradouro. Mesmo quando os cientistas tentaram “alimentar” os modelos com textos de qualidade superior, as falhas de raciocínio persistiram. É como se o cérebro artificial tivesse internalizado o hábito de pensar de forma apressada e rasa.
O espelho humano
A conclusão soa familiar. Pesquisas sobre o comportamento humano mostram que o consumo excessivo de conteúdos curtos e pouco desafiadores está ligado a procrastinação, queda no desempenho acadêmico e dificuldade de concentração. Um estudo da Universidade de Stanford mostrou que usuários intensivos de redes sociais apresentam padrões de distração semelhantes aos de pessoas com déficit de atenção. Outros trabalhos indicam que a exposição constante a estímulos rápidos reduz a capacidade de processar informações complexas e pode alterar até o ritmo da memória de curto prazo.
O “brain rot”, portanto, não é apenas uma metáfora cultural. É um sintoma de um novo tipo de relação com o conhecimento. No Brasil, o fenômeno se espalha entre os jovens que passam horas em plataformas como TikTok, Kwai e YouTube Shorts, onde o algoritmo privilegia o conteúdo que gera reação imediata. Quanto mais absurdo ou engraçado, mais engajamento recebe. A lógica é simples e cruel: o que prende o olhar vence.
E se o olhar humano é facilmente seduzido, o das máquinas não é diferente. Inteligências artificiais aprendem observando padrões. Quando o material que consomem é raso e caótico, elas aprendem a ser rasas e caóticas.
A dieta mental da IA
O estudo das universidades americanas é uma espécie de alerta sobre a “alimentação” das IAs. Grande parte dos modelos mais populares é treinada com textos retirados da internet sem um controle rigoroso de qualidade. Isso significa que, junto de artigos científicos e obras literárias, também entram montanhas de posts de redes sociais, discussões em fóruns e comentários anônimos.
Para os pesquisadores, essa mistura é perigosa. Eles compararam o processo a uma dieta desequilibrada. Se uma pessoa come apenas fast food por tempo suficiente, seu corpo se adapta a essa rotina e perde a capacidade de processar alimentos saudáveis. Com a IA acontece algo semelhante. A exposição prolongada a conteúdo superficial cria hábitos de pensamento automatizados e empobrece o raciocínio simbólico, aquele que permite interpretar nuances, ironias e contextos complexos.
Em termos simples, a máquina deixa de pensar como um analista e passa a reagir como um comentarista de rede social.
Quando o algoritmo adoecer é o sintoma
Embora as inteligências artificiais não tenham emoções, os pesquisadores identificaram traços de comportamento que, se fossem humanos, seriam descritos como psicopatia e narcisismo. Isso se manifesta na tendência dos modelos de ignorar contradições, afirmar certezas sem base e exagerar na confiança de suas próprias respostas.
Essa “personalidade digital” é um produto direto do ambiente em que foi formada. Em plataformas online, a lógica do engajamento recompensa quem fala mais alto e menos pensa. As IAs, ao absorver esse padrão, reproduzem o mesmo tipo de discurso. Assim, o que parecia apenas um espelho da internet vira um ciclo de retroalimentação.
A sociedade do conteúdo descartável
A relação entre qualidade de informação e saúde cognitiva é antiga, mas nunca esteve tão ameaçada. A ideia de que “qualquer conteúdo serve” ganhou força com a popularização das ferramentas de IA generativa. Hoje é possível criar milhares de textos, imagens ou vídeos em minutos. O volume cresce em ritmo exponencial, mas a profundidade não acompanha.
No Brasil, isso já afeta o jornalismo, a educação e até a política. Notícias falsas e textos fabricados por máquinas circulam com a mesma velocidade que memes e paródias. A fronteira entre o que é verdadeiro e o que é apenas verossímil se dissolve. O “brain rot” vira política pública, cultura e entretenimento ao mesmo tempo.
A cura é possível?
Os autores do estudo tentaram reverter os efeitos do “brain rot” digital alimentando os modelos com material de alta qualidade. A ideia era que, da mesma forma que uma boa dieta restaura o corpo, um bom conjunto de dados restauraria o pensamento. O resultado foi frustrante. As inteligências artificiais melhoraram em algumas tarefas, mas o prejuízo de raciocínio complexo permaneceu.
A hipótese é que, uma vez internalizado o padrão de pensamento superficial, o modelo reorganiza seus parâmetros de forma permanente. A memória neural se acomoda e passa a preferir atalhos cognitivos. Isso tornaria o dano irreversível sem um novo treinamento completo, algo extremamente caro e demorado.
A versão brasileira do colapso cognitivo
No Brasil, o fenômeno ganha contornos próprios. Termos como “cringe”, “fanfic” e “trend” são incorporados ao vocabulário com naturalidade, e os ciclos de popularidade de memes locais são ainda mais intensos. Uma piada que viraliza num sábado já está ultrapassada na segunda-feira. Essa velocidade cria um ambiente em que o conteúdo precisa ser descartável para sobreviver.
Alguns pesquisadores brasileiros têm alertado que esse ritmo pode afetar a maneira como os jovens se relacionam com a informação. Professores relatam que estudantes chegam à universidade com dificuldade de manter a atenção em textos longos e preferem aprender por vídeos curtos. A leitura, que exige tempo e concentração, disputa espaço com o prazer instantâneo de deslizar a tela.
Se as inteligências artificiais estão sofrendo com a mesma síndrome, talvez estejamos diante de um reflexo simbiótico. O humano ensina a máquina a pensar como ele, e a máquina, por sua vez, reforça o comportamento do humano. Um círculo perfeito de distração.
O que resta do pensamento
A pergunta que fica é como interromper esse ciclo. No caso humano, educadores e psicólogos defendem práticas de desaceleração digital e estímulos à leitura profunda. No caso das máquinas, os cientistas sugerem o desenvolvimento de protocolos de treinamento ético, que filtrem e avaliem a qualidade dos dados usados.
Há também quem proponha uma mudança mais ampla. Em vez de tentar “curar” a inteligência artificial do brain rot, talvez devêssemos repensar o próprio modelo de produção de conteúdo online. Enquanto a internet continuar estruturada em torno de cliques e visualizações, tanto humanos quanto máquinas estarão condenados a raciocinar em fragmentos.
O estudo não é um fim, mas um espelho. Ele mostra que a degradação cognitiva provocada pelo consumo excessivo de informação trivial não é apenas uma questão de distração individual. É um problema sistêmico, enraizado na forma como a sociedade digital define o valor do conhecimento.
Pensar exige tempo. E tempo é o que mais falta em uma era onde tudo precisa ser imediato. Talvez o verdadeiro antídoto para o brain rot, seja humano ou artificial, comece com um simples gesto de pausa.
Sobre o autor deste artigo
Fernando Henrique Ferreira de Souza é advogado, DPO e entusiasta de inovações no mundo do Direito e dos Negócios.